Redações repletas de emoção, memórias afetivas e relatos de superação estão ganhando melodia e ritmo nas salas de aula da Unidade Municipal de Ensino Fundamental (Umef) Professor Paulo César Vinha, localizada no bairro Terra Vermelha, em Vila Velha. O projeto inédito “Redação que Virou Canção” está transformando em composições musicais as produções textuais de 150 alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os estudantes, com idades que variam dos 15 aos 80 anos, estão matriculados do 6º ao 9º ano (antigas 5ª a 8ª séries) no turno da noite.
Os manuscritos, que originalmente foram produzidos para o concurso literário municipal “Entre Versos e Rimas” — promovido pela Secretaria de Educação de Vila Velha —, chamaram a atenção da pedagoga Graziele Chalhub. Ao realizar a triagem dos textos, ela notou a profundidade literária e a densidade emocional dos relatos e percebeu a oportunidade de expandir o alcance daquelas narrativas por meio de uma nova linguagem artística.
Tecnologia e Inteligência Artificial no letramento digital
Para ganhar vida, o projeto foi inserido na rotina pedagógica e passou a ser conduzido de forma interdisciplinar. Sob a orientação da professora de Língua Portuguesa Rosangela Pereira e com o suporte técnico da servidora Yara Alves, os alunos adaptaram suas redações para o formato de letras de música. O diferencial da proposta está na introdução de ferramentas digitais de áudio impulsionadas por Inteligência Artificial (IA) durante as aulas de Tecnologia. A plataforma permite que os próprios estudantes escolham o gênero musical — do samba ao rap, passando pelo sertanejo e gospel — e gerem as melodias que acompanham suas palavras.
Essa imersão digital democratiza o acesso à produção cultural e insere estudantes da terceira idade no universo da tecnologia, quebrando barreiras geracionais e promovendo a inclusão digital em uma comunidade historicamente vulnerável.
“A importância de um projeto de escrita é medida pelo seu alcance: quando ele se multiplica, ele deixa de ser um mero documento escolar e passa a ser um movimento de transformação cultural. Ao darmos voz e ritmo às memórias desses alunos, a escola cumpre um papel que ultrapassa o ensino formal da gramática, atuando diretamente no resgate da autoestima, no letramento digital e na valorização da identidade local”, destacou a pedagoga Graziele Chalhub.
Resgate da cidadania através da educação
Historicamente, os estudantes da modalidade EJA carregam trajetórias marcadas pela interrupção dos estudos devido a necessidades de trabalho precoce ou dinâmicas familiares complexas. O retorno aos bancos escolares na idade adulta é um ato de resiliência. O diretor da Umef, Silverilzo de Oliveira Veiga, ressaltou que dar visibilidade a essas vivências é o principal ganho da metodologia ativa aplicada na escola.
“Projetos como esse na EJA são fundamentais porque valorizam a voz, a história e a autonomia do aluno. Eles deixam de ser meros receptores e passam a ser produtores de cultura, transformando a escrita em uma ferramenta prática de expressão individual, cidadania e inclusão social”, pontuou o diretor.
Com o sucesso do ciclo de produções, a coordenação da escola planeja compilar as faixas geradas pelos alunos em uma mostra cultural aberta, permitindo que as famílias e a comunidade de Terra Vermelha conheçam as biografias que foram convertidas em patrimônio musical do município.

















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